← Back to portfolio

Ser Turista no Nosso Próprio Estado

Published on
    Conhecido por suas paisagens deslumbrantes, o Rio de Janeiro esbanja beleza, cultura, arte, diversidade e história. Por aqui não faltam pontos turísticos. O roteiro é extenso e valioso, reunindo praias, parques florestais, museus, igrejas, monumentos históricos, teatros, estádios esportivos e muitos outros atrativos. Assim, a atividade turística se faz presente na vida de boa parte das pessoas que vivem no Estado e buscam por experiências inesquecíveis, seja visitando um Cristo Rendentor ou uma pequena cidade do interior. 

    No sentido literal, “são consideradas turistas as pessoas que saem de seu país ou região para uma viagem de visita a outro país, estado ou região”. Para o professor de História Abdala Farah, de 42 anos, essa denominação fica muito clara quando a visitação de centros históricos e locais culturais do Estado é idealizada para “quem vem de fora”, de outros estados e principalmente de outros países. “O nosso turismo é muito focado na importação de visitantes”.
    O professor afirma que isso se confunde um pouco com o processo de gentrificação, que é a transformação de valores imobiliários sempre procurando tornar as regiões mais rentáveis. “Aquelas áreas tradicionais frequentadas por turistas estrangeiros e que têm um retorno financeiro bem maior, como, por exemplo, um Corcovado ou um Bondinho, são lugares com um policiamento diferenciado, com uma organização específica para o estrangeiro”. 
    Ele diz que o turismo para o morador do Estado é tão importante ou até mais importante do que para o estrangeiro. Pois é de suma importância para a população local o conhecimento de seu patrimônio cultural e histórico, da região onde vive e da importância que teve aquele lugar. “Isso traz não só uma autoestima para os próprios moradores, como um sentido de preservação e, obviamente, acaba gerando um clima bem melhor e mais favorável ao turismo externo”, acrescenta.
    Ainda que os maiores incentivos à atividade turística estejam direcionados mais para o público externo e para os famosos pontos turísticos, a turismóloga Patrícia Prunes, de 28 anos, afirma que o turismo não deve ser pensado apenas para quem vem de outra região, estado ou país. Para ela, o Estado deve despertar no morador local o interesse de conhecer produtos turísticos, atrativos, manifestações culturais. “Isso é importante para estimular o sentimento de pertencimento, cuidado, atenção e hospitalidade com sua cidade e os turistas”.
    O que ocorre é que, muitas vezes, o turista que vem de outro lugar conhece melhor os atrativos locais do que os próprios moradores da região, o que denota uma falta de harmonia entre visitantes e visitados. “O objetivo do turismo é unir os dois atores sociais para que tenhamos um turismo qualitativo e uma cidade satisfeita em todos os sentidos, seja com seus turistas e atrativos, como também em relação ao transporte, planejamento e desenvolvimento como um todo”, esclarece a turismóloga. 
    Muitas pessoas enxergam a atividade turística voltada apenas para locais famosos e conhecidos mundialmente. Mas os atrativos não são somente aqueles que são divulgados pela mídia, de interesse comercial, ambiental ou cultural, mesmo que tenham uma maior visibilidade. “Atrativos podem e devem ser considerados quando relacionados a manifestações culturais, sociais e ambientais que são desenvolvidas ali, fazem parte da história da comunidade e tenham potencial para se transformar em produtos turísticos”, acrescenta Patrícia.
    Não é à toa que o advogado Gustavo Telles, de 25 anos, mudou seu olhar em relação ao turismo quando se mudou do município de Niterói para Volta Redonda, localizada no Sul Fluminense do Estado. O ex estudante de Direito e recém formado, passou cinco anos na “Cidade do Aço” estudando longe da família e dos amigos. Foi quando veio a recompensa. Gustavo não só fez amigos, como também descobriu as peculiaridades de um lugar que nunca imaginou conhecer.
    Ele percebeu que as riquezas de Volta Redonda iam além das  praias e dos famosos cartões postais que pôde conhecer enquanto estava em Niterói. Antes, ele só tinha olhos para a cidade do Rio: já visitou o Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Igreja da Candelária, Teatro Municipal. Hoje, reconhece: “O Sul Fluminense do Estado é lindo demais. O Parque Nacional de Itatiaia, Penedo, Visconde de Mauá, são regiões maravilhosas de visitar”. Apesar disso, lamenta e diz que esses lugares deveriam ser mais explorados e valorizados devido à abrangência da região.
    Enquanto locais como Volta Redonda são muito pouco valorizados, o município de Niterói exibe sua singularidade por meio de belíssimas praias. Um exemplo disso é Itacoatiara, considerada a preferida e queridinha dos niteroienses. Quem conhece “Itacoa”, como popularmente é chamada, se encanta à primeira vista com o mar, seus morros e trilhas. Aqueles que percorrem a admirada Trilha do Costão tem garantia de uma paisagem deslumbrante ao atingir seu cume. O fim da caminhada garante uma visão ampla de toda a praia de Itacoatiara, parte da lagoa de Itaipu e Piratininga, além de outras serras e morros da região.
    E não é por acaso que o Costão se tornou uma das trilhas mais visitadas de toda a região do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET). Quem tem um olhar mais atento consegue observar a riqueza da fauna e da flora, sentir o ar puro e unir diversão e adrenalina, de acordo com as condições e o preparo físico de cada visitante. O condutor ambiental do PESET, Luciano Perdomo, de 35 anos, explica: “A proximidade da praia de Itacoatiara e o fácil acesso levaram o Costão a bater recorde de visitação num domingo do mês de setembro de 2016, com um número de 2.246 visitantes em um único dia”.
    A procura pelas belezas de Itacoatiara vem se tornando tão frequente que o condutor ambiental diz que a economia local é a mais favorecida. “Diversas pessoas com gostos diferentes procuram essas atividades todos os dias, aumentando a renda per capita da região, que envolve desde o ambulante da praia, pousadas, bares, restaurantes, supermercados. Por isso, Luciano enaltece que a preservação ambiental da praia e da trilha deve ser de suma importância por parte de seus visitantes.
    Para ele, as pessoas devem ter consciência e respeito acima de tudo, não apenas na hora de coletar o lixo que produzirem, bem como na preservação de plantas e árvores nativas da região, mantendo-as sempre nos seus locais de origem visando a conservação do local. Assim, uma dica para todos aqueles que visitam o Parque Estadual da Serra da Tiririca é: “Tire apenas fotos, essa é uma recomendação de todos os condutores do PESET para aqueles que vão realizar as mais diversas trilhas do parque”, orienta o condutor ambiental.
    Não muito distante de Itacoatiara, a estudante e moradora do bairro de Icaraí, Zona Sul de Niterói, Paula Paiva, de 20 anos, também vê a importância do turismo na movimentação da economia, mas dessa vez, do outro lado da Baía de Guanabara. Ela cita a Lapa e a antiga região da perimetral como regiões que eram ruins, mas que ganharam certa relevância com o passar do tempo. Paula diz que essas localidades têm sido fundamentais para a atividade turística no Estado. “A Lapa por ser reduto do samba e ter fortes características históricas e o Museu do Amanhã por ser reconhecido mundialmente e por fazer parte da revitalização do Centro do Rio”. 
    A estudante também reconhece que os vários pontos turísticos do Estado, desde praias, trilhas, cachoeiras, museus e monumentos têm grande importância e são o ponto forte de quem vive por aqui. “Ser turista no Rio é infinito. Quando você acha que já conheceu tudo, aparecem novos lugares incríveis para ser visitados”, garante Paula. E ainda exalta a importância dos pontos históricos da escravidão, da monarquia e toda a história do Brasil, que pode ser contada quando se percorrem às ruas do Centro do Rio. 
    De paisagens desconhecidas a  grandes monumentos históricos, os moradores do Rio sempre vão ter um bom motivo para conhecer novos pontos turísticos. A turismóloga Patrícia Prunes enfatiza que uma política comunitária seria ideal para incentivar o turismo local no Estado. “A população deveria ter preços reduzidos ou até mesmo gratuidade nos atrativos locais.” Dessa maneira, isso reforçaria o conhecimento dos moradores locais, o sentimento de pertencimento à cidade, o contato com a cultura e as origens, além de colaborar com a economia e facilitar a hospitalidade turística, contribuindo para o desenvolvilmento econômico e social, além da qualidade de vida da cidade.
Close